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Beleza & Grooming

O NOVO ROSTO DA MASCULINIDADE

Da toxina botulínica aos tratamentos de pele, os homens estão repensando o que significa cuidar da aparência — e quem tem o direito de decidir.

foto de Kristof/cortesia de nanobanana

Redação JEITO

Houve um tempo em que um homem que admitisse ter feito algum procedimento estético corria o risco de revelar muito mais do que uma testa sem rugas. Poderia ser visto como vaidoso, inseguro ou, de alguma forma, menos masculino. Hoje, essa conversa está mudando. Os homens estão investindo na pele, valorizando os traços do rosto e experimentando tratamentos estéticos que, até pouco tempo atrás, eram associados quase exclusivamente às mulheres. Cada vez mais, a questão já não é se os homens se preocupam com a aparência. É até onde estão dispostos a ir para alcançar o visual que desejam.

As aplicações de toxina botulínica, popularmente conhecidas por marcas como Botox, ajudaram a tornar os procedimentos estéticos mais comuns e socialmente aceitos. Preenchedores dérmicos, tratamentos de renovação da pele e outras técnicas minimamente invasivas oferecem alternativas que não exigem necessariamente cirurgia ou mudanças radicais. Muitas vezes, a intenção é sutil: uma aparência mais descansada, um contorno mandibular mais definido, uma pele mais uniforme ou simplesmente aquele ar de quem dormiu bem.

O objetivo, dizem muitos homens, não é parecer outra pessoa. É parecer consigo mesmos em um daqueles dias em que tudo parece estar no lugar.

Muito além do espelho

O interesse crescente dos homens pela estética reflete uma transformação cultural mais ampla. O mercado de cuidados pessoais se tornou uma indústria bilionária, as redes sociais transformaram rostos e corpos em vitrines pessoais, e as fotografias em alta definição deixaram pouco espaço para imperfeições que antes passavam despercebidas. No trabalho, nos relacionamentos, na moda e no entretenimento, a aparência ganhou um papel cada vez mais evidente na maneira como as pessoas se apresentam ao mundo.


Os procedimentos estéticos ocupam um espaço entre a expressão individual e a pressão social. Para alguns homens, fazer um tratamento é simplesmente uma forma de autocuidado. Para outros, é uma maneira de lidar com a ansiedade de envelhecer em uma cultura que valoriza a juventude, o corpo em forma e a reinvenção permanente.

Essas motivações não existem isoladamente. Ter liberdade para mudar a própria aparência pode ser algo empoderador, mas essa mesma liberdade também pode se transformar em expectativa. Quando cada fotografia pode ser analisada e cada suposta imperfeição corrigida, a busca por uma versão melhor de si mesmo corre o risco de se tornar um projeto sem fim.

Um mundo, diferentes ideais

A conversa global sobre beleza não é uma conversa única. Os traços que os homens escolhem valorizar, os tratamentos aos quais têm acesso e os significados sociais associados aos procedimentos estéticos variam de acordo com a cultura e o mercado.

No Brasil, onde a beleza e os cuidados com a aparência ocupam um espaço bastante presente na cultura cotidiana, os procedimentos estéticos fazem parte de uma conversa cada vez mais ampla sobre autoestima, envelhecimento e expressão pessoal. A medicina estética também ganhou visibilidade, e os homens passaram a participar mais abertamente de um universo que por muito tempo foi apresentado como predominantemente feminino.

Mas não existe um único padrão brasileiro de beleza masculina. Em diferentes regiões, gerações e círculos sociais, mudam as referências, as preferências e até a maneira como a vaidade é percebida. A influência da moda, das redes sociais, da música, do esporte e do entretenimento também ajuda a ampliar o repertório de imagens e possibilidades.

Ainda assim, é importante olhar para os números com cuidado. As estatísticas internacionais registram um volume significativo de procedimentos estéticos em diferentes países, mas nem sempre mostram quais tratamentos são escolhidos especificamente pelos homens em cada mercado. E o número total de procedimentos realizados em um país não revela, por si só, o que cada homem considera atraente.

Essa diferença importa. Um maxilar definido, uma pele uniforme, um perfil marcante ou uma aparência jovem podem fazer parte das preferências de muitos homens. Mas não existe um ideal universal de masculinidade — e tampouco um procedimento capaz de defini-lo.

A arte de saber a medida

Existe também uma questão de autenticidade. Em que momento o aprimoramento se transforma em transformação? Um rosto se torna mais atraente porque foi modificado ou porque a pessoa por trás dele se sente mais confiante? E por que ainda tratamos a decisão de um homem de mudar a própria aparência como algo que exige justificativa?

Talvez a mudança mais interessante não esteja na tecnologia em si, mas na crescente disposição dos homens de falar abertamente sobre suas escolhas. Procedimentos estéticos não precisam ser um segredo nem um símbolo de status. São decisões pessoais, que devem ser tomadas com expectativas realistas, orientação de profissionais qualificados e consciência de que até mesmo tratamentos não cirúrgicos envolvem riscos.


A masculinidade nunca foi tão rígida quanto seus defensores mais conservadores gostariam de fazer parecer. Ao longo da história, os homens sempre construíram sua aparência por meio das roupas, do cuidado pessoal, da forma física, dos cabelos e dos adornos. Os injetáveis e os procedimentos estéticos são apenas mais um capítulo dessa história.

A verdadeira questão não é se os homens devem aderir aos procedimentos estéticos ou rejeitá-los. É se podem fazer essas escolhas nos próprios termos — livres do antigo estigma, mas também da nova exigência de parecerem permanentemente impecáveis.

Talvez o novo rosto da masculinidade tenha menos a ver com uma testa sem rugas ou um maxilar esculpido e muito mais com algo que nenhuma tecnologia consegue fabricar: a confiança para decidir, por conta própria, o que significa estar bem com a própria aparência.

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